ONGs criticam Bolsonaro por negar crise ambiental em discurso na ONU

BRASÍLIA (Reuters) – O discurso do presidente Jair Bolsonaro na abertura da 75ª Assembleia-Geral das Nações Unidas, nesta terça-feira, foi criticado por organizações ambientais e que tratam de direitos indígenas, por dizer que a floresta não queima e que os incêndios na região são causados por índios e “caboclos”.Brigada de combate a incêndio do Ibama tenta controlar fogo na floresta amazônica em Apuí, no Amazonas 11/08/2020 REUTERS/Ueslei Marcelino

“Ao negar simultaneamente a crise ambiental e a pandemia, o presidente dá a trilha sonora para o desinvestimento e o cancelamento de acordos comerciais no momento crítico de recuperação econômica pós-Covid”, disse em nota o organização Observatório do Clima, que reune ONGs de defesa do Meio Ambiente.

Para o Greenpeace, o discurso do presidente minimiza e nega a situação ambiental que o Brasil vive e agrava a situação.

“Lamentavelmente, já estamos habituados a ouvir o presidente faltar com a verdade, desqualificar a ciência e buscar culpabilizar terceiros em vez de assumir a responsabilidade constitucional que possui”, disse a organização em nota.

Camila Asano, diretora de programas da Conectas Direitos Humanos, diz que “sobrou hipocrisia” no discurso.

“Bolsonaro fez um discurso desrespeitoso aos líderes mundiais em que subestima a inteligência e nível de conhecimento e informação de seus pares sobre a crise no Brasil. Ele negou a gravidade da destruição ambiental, culpou ‘caboclos e índios’ e atacou o trabalho de organizações ambientais”, disse, também em nota.

O líder do PSB na Câmara, deputado Alessandro Molon (RJ), o presidente “voltou a mentir para o mundo ao afirmar que há uma campanha de desinformação sobre a Amazônia e Pantanal.”

“O que há na verdade é uma ação sistemática do governo para reduzir a fiscalização, ameaçar fiscais e estimular atividades ilegais nestes biomas”, disse.

O discurso do presidente entrou entre os assuntos mais comentados do Twitter. Entre eles, reações contrárias à declaração de Bolsonaro contra o que chamou de “cristofobia”, uma suposta perseguição mundial a religiões cristãs, e com a palavra “mentiroso”, de reações a diversas informações inverídicas citadas pelo presidente em seu discurso.

Em sua fala, Bolsonaro afirmou que existe uma campanha internacional de desinformação sobre o Brasil que aumenta a questão das queimadas na Amazônia e no Pantanal, com intenção de prejudicar o agronegócio brasileiro. O presidente, ao negar as queimadas na Amazônia, disse que a floresta é úmida e não permite fogo em seu interior, e que os incêndios ocorrem no entorno da floresta, causados por índios e “caboclos”, em áreas já desmatadas. [nL2N2GJ0U1]

Bolsonaro defendeu a ação do governo durante a pandemia de Covid-19 e voltou a dizer que não pode agir mais por uma decisão do Supremo Tribunal Federal.

O presidente afirmou, ainda, que o governo brasileiro teria pago cerca de mil dólares em auxílio emergencial para 65 milhões de pessoas, o que seria o equivalente, hoje, a 5.400 reais. As quatro parcelas de 600 reais mais quatro de 300, a serem pagas até dezembro, somam 3.600 reais. Cerca de 20% dos beneficiados receberam, na primeira fase, 1.200 por mês e podem receber 600 na última fase, mas as regras também se tornaram mais rígida e devem diminuir o número de beneficiados.

DEFESA

Já o vice-presidente Hamilton Mourão saiu em defesa do presidente. Segundo Mourão, Bolsonaro foi claro e didático e abordou questões como o meio ambiente “dentro da nossa visão.”

“Que existe uma campanha de desinformação, existe. Isso aí eu já comentei aqui com vocês, e compete a nós nos contrapormos. Agora, eu sempre deixo claro que a contraposição tem que se dar por duas vertentes: uma vertente de uma informação qualificada e a segunda vertente é de impedir que ilegalidades ocorram para não dar margem a esse tipo de pressão”, disse o vice-presidente a jornalistas no Palácio do Planalto.

Bolsonaro assistiu à transmissão de seu discurso em seu gabinete, no Palácio do Planalto, reunido com alguns ministros e parlamentares. Estavam com ele os líderes do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), e no Senado, Fernando Bezerra (MDB-PE), o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-SP), seu filho, e os ministros Fábio Faria, das Comunicações, Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, e Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo.

Fonte: Reuters Brasil